TESTEMUNHA OCULAR
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A DANÇA DO TEMPO
NALDOVELHO
Na dança do tempo, o descompasso das horas,
ainda é noite aqui dentro, amanhece lá fora.
A porta entreaberta denuncia a loucura
o silêncio das coisas aumenta a clausura.
Na dança da vida, o descompasso do tempo,
calmaria aparente, tempestade aqui dentro.
E a insônia insistente não quer ir embora,
coração ainda sangra, vez por outra ainda chora.
Na dança dos versos, poemas que imploram,
nostalgia que eu temo, inquietudes que afloram,
Um sorriso aparente, um café, um cigarro,
uma dúzia de rosas ressecadas num jarro.
Na dança das águas, beija-flor foi pra longe,
voou bem depressa, se escondeu não sei onde.
Agora chove lá fora, secura aqui dentro,
as notícias que guardo são antigas, faz tempo.
Já são quase dez horas e a cidade nublada,
manhã fria de agosto, respiração afrontada.
O poema que nasce não diz o que eu quero,
não sei se desisto, não sei se te espero.
FIOS
NALDOVELHO
Fios em desalinho embaraçam a trama,
arranham, deformam e até infeccionam.
Fios dependurados em sobras complexas,
reinventam o pecado, se excedem nos dramas.
Fios compactados, num só ponto, amontoados,
transformam o tecido em pedra e dão limo.
Fios puídos enfraquecem o tecido,
distorcidas imagens, revelam estragos.
Fios, tecidos, esparramados pra todo o lado.
Pessoas são fios embaraçados na trama.
Texturas são dramas que buscam um caminho,
dissolvendo as pedras, limpando o limo.
Fios contorcidos entulham o ambiente,
impedem o bordado, não servem, coitados!
Melhor desembaraçar as linhas, destinos,
textura e tecido precisam respirar.
LUA NUBLADA
NALDOVELHO
Lua nublada?
Vez em quando aparece,
quase sempre se esconde.
Madrugada de outono,
onde o silêncio enlouquece
e a cidade nem dá conta
de como é feio o abandono.
Ruas desertas, esquinas vazias,
portas e janelas fechadas
e alguns poucos carros
passam e não param.
Ainda existe o orvalho,
tipo lágrima discreta.
Ainda existe a espera,
coisa estranha e inquieta.
Lua nublada?
Já foi cheia e exibida
lá dentro do meu quarto,
já dançou noites de insônia,
bebeu todo o meu absinto,
fez juras de amor eterno
e depois minguou.
Hoje é só nublada:
vez em quanto aparece,
quase sempre se esconde
NEM SEMPRE...
NALDOVELHO
Nem sempre poesia, muitas vezes heresia,
enredo que não pode ser desfeito,
tramas, teias, dramas, grito espremido no peito,
histórias que o tempo fez questão de preservar.
Nem sempre são rosas, muitas vezes espinhos,
outras vezes são cortes, fraturas, entorses,
sangue coagulado, cicatrizes que ainda doem,
feridas que o tempo não foi capaz de curar.
Nem sempre fragrâncias, muitas vezes odores,
coisas cheirando a mofo, amareladas, apodrecidas,
resto de comida esquecida no forno,
coisas que o tempo não deu conta de dissipar.
Nem sempre vitórias, muitas vezes derrotas,
descaminhos estranhos, sem volta,
andar desequilibrado pela beira do abismo,
escolhas que o tempo deixou você tomar.
Não venham, pois, falar de sonhos,
nem peçam esperança no abandono...
O tempo é esfinge que nos devora,
enigma confuso que eu não sei como decifrar.
NOTÍCIA DE ONTEM
NALDOVELHO
Pedras postas nas margens da estrada
delimitam caminhos, definem trajetórias,
impedem mudanças de rumos, destinos,
empobrecem a história de cada um de nós.
Janelas fechadas por trincos, tramelas,
cerceiam a luz, aprisionam o ar
saturado aqui dentro,
sufocam a vida, desmaiadas as cores,
penumbras, sussurros, não posso respirar!
O limo das pedras, o mofo das coisas,
a ausência do vento, do verbo, do tempo,
as notícias de ontem, o café requentado,
a comida estragada, esquecida no forno,
um monte de roupas amontoadas num canto,
as rosas murcharam, o telefone não toca,
tuas cartas largadas em cima da mesa,
poemas rascunhados, solidão e tristeza,
a televisão ligada, já vi este filme,
no final o mocinho morre de amor.
A mocinha, coitada, viajou pra bem longe,
não sabe qual é o novo endereço,
não sabe do limo, da pedra e das rosas,
não sabe do filme, do enredo, das sombras,
virou pé de vento, rompeu as fronteiras,
fiz tantas besteiras, tranquei-me num quarto,
virei um poeta das coisas que eu choro,
café requentado, notícia de ontem,
coberto de limo, sou pedra, sou rosa,
ressecadas as pétalas, ainda restam os espinhos.
SALA DOS ESPELHOS
NALDOVELHO
Sala dos espelhos, parede em frente,
um quadro contundente a transbordar luminosidades
em harmoniosos matizes a retratar com fidelidade
lágrimas cristalizadas, há tempo choradas,
por conta de um desencontro, coisa estranha demais!
Na parede ao lado, lado esquerdo do peito, marcas de batom...
Na parede ao fundo um poema rabiscado,
versos ardidos, por conta de uma despedida,
que se fez com dor de partida, para nunca mais.
Na parede do outro lado, lado direito do peito,
janela aberta, luz da lua inquieta
e um vento frio perverso, dando conta
que a solidão veio pra ficar.
No teto, espelhos, inúmeros e pequenos espelhos,
unidos como um quebra cabeças, ou coisa assim!
No chão, muitas coisas estilhaçadas,
testemunhos dos meus ais.
Triste é saber que esta sala não tem portas.
Estranho é que, só hoje, eu tenha percebido.
VACILOS DO CORAÇÃO
NALDOVELHO
Cicatriz dolorida, dedo miúdo esquerdo.
Nunca mais descasquei cana, medo!
Vai que eu esqueço de novo
o pobre do mindinho esquerdo?
Cicatriz disfarçada, pálpebra do olho direito,
vez por outra arde, denuncia, faz alarde,
reclama da lágrima, diz que é cisco no olho.
Quem sabe um segredo?
Coração em degredo vez por outra ainda chora.
Escorrem versos, ponta dos dedos...
Gota a gota, segredos, meus medos.
Vai que eu esqueço a trilha
e me vejo de novo na rota do desassossego?
Melhor buscar frutas tenras,
não esquecer de evitar as ácidas!
Melhor usar óculos escuros...
Não esquecer do colírio!
Melhor permanecerem os versos,
vez por outra coração ainda vacila,
teima em buscar outras trilhas,
e aí...
VENDE-SE UMA ILUSÃO
NALDOVELHO
Cortinas rasgadas, janela entreaberta,
sala sombria, estranha, inquieta.
Sobre a mesa de centro, num vaso de flores,
rosas murchas, faz tempo.
No fundo da sala, quadros amarelados,
retratos de família, lembranças de um passado.
Na parede ao lado, numa estante,
livros, empoeirados, fechados.
Deitado num sofá um siamês
lambe as patas, e a tudo observa...
No canto da sala, numa pequenina mesa,
um abajur aceso, pálida luz, tristeza.
Por uma porta que liga, a sala ao corredor,
dois quartos dispostos, opostos, fechados
e um pequeno e aconchegante banheiro.
No final do corredor, espaçosa cozinha,
porta dos fundos e um amplo basculante,
de onde se pode ver, num quintal mal tratado,
árvores hospedeiras de orquídeas e trepadeiras.
Na frente da casa, numa pequena varanda:
samambaias, bromélias e uma espreguiçadeira.
Rua Noronha Torrezão, já nem lembro o número,
pois o que restou em minha mente
foi uma pequena placa afixada no portão:
VENDE-SE UMA ILUSÃO!
Naldo Velho:
Poeta, compositor, artista plástico, filiado à ANE - Associação Niteroiense de Escritores, à APPERJ - Associação dos Poetas Profissionais do Estado do Rio de Janeiro e ao Sindicato dos Escritores do Estado do Rio de Janeiro.
Livro Publicado: MANIA DE COLECIONADOR
Vem se apresentando nos últimos dois anos no eixo Rio - Niterói, com poesia e músicas de sua autoria, com o trio Língua Ferina, composto pelos músicos Fernando Santos, violão e Luciana Lazzuli, voz.

Apresentação no Todas Elas e Alguns Deles realizada em junho de 2006 no CEDIM - Centro dos Direitos da Mulher - Rio de Janeiro

3 Comentários:
Naldo, querido, vc ganhou esse espaço num dia bem significativo pra vc.
Então considere-o um presente e lembre sempre do aniversário dele através dessa reunião de textos que há muito acredito que vc já mereça.
Um abraço,
Cris Passinato
(sua editora do Caderno R)
Por
Blogs dos Colunistas Caderno R, Ã s 1:59 AM
Cris!
Você é um anjo, uma lutadora pela cultura e pela preservação ambiental e uma excelente escritora.
Naldo
Por
NaldoVelho, Ã s 8:17 PM
Naldo Velho,
Tão bom tê-lo como companheiro literário no Caderno R editado pela nossa e querida poetisa Cris.
Abraços fraternos.
Por
Anônimo, Ã s 3:32 PM
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